Espaços híbridos de cultura ganham força no Brasil
Sucesso em países desenvolvidos, a tendência ganha terreno em território nacional
Há algum tempo os chamados espaços híbridos vêm ganhando notoriedade nas grandes cidades brasileiras. Sucesso em algumas metrópoles europeias e norte-americanas parece ter aportado de vez por aqui. O fato de unir vários conceitos artísticos, estéticos e gastronômicos, faz desses ambientes, além de um agregador de tendências, por receber pessoas com interesses diferentes, um multiplicador de experiências, por permitir essa troca.
Do ponto de vista econômico, essa pluralidade do produto torna-se eficaz, pois o visitante acaba por consumir não apenas o que é de seu interesse primário, passando a interagir com outras áreas, aumentando assim a receita da casa.
É o caso da Galeria Lúdica de Curitiba, espaço que reúne escritório de criação, loja, galeria de arte e café-bistrô. “As pessoas sabem que vão encontrar novidades de marcas que estão amarradas nas mesmas tendências em um só espaço, sem precisar ir a um shopping. Na Galeria Lúdica as pessoas podem fazer compras, buscar tendências, referências, inspiração, ler ou folhear um livro, ligado aos mercados da qual trabalhamos, apreciar uma exposição de arte, mobiliário de design ou simplesmente comer ou tomar algo com os amigos em nosso café-bistrô”, disse Débora Mello, arquiteta e uma das proprietárias do espaço.
Na cidade do Recife, também cresce o número de espaços híbridos, como no caso da Muda, que reúne artes plásticas, bistrô, brechó e artes cênicas. “A vantagem é para quem gosta de arte. Para quem não tem receio de dialogar e interagir com as inúmeras linguagens, e é muito bom ver tanta rotatividade de pessoas diferentes de diversos segmentos, bonitas, interessantes e inteligentes circulando, trocando ideias e experiências em suas áreas, e sentindo vontade de experimentar outras linguagens artísticas a partir do que vê. É harmonia pura. A vantagem é que podemos mudar”, disse Paulina Albuquerque, atriz, estilista e idealizadora da Muda.
Segundo Débora Mello, a Galeria Lúdica nasceu da idéia de um espaço conceito híbrido composto por moda, arte, design e tudo que gira em torno destas tendências. Um local onde as mentes criativas pudessem se expressar em diversas formas. “Conhecia muita gente que tinha um trabalho interessante e de qualidade, mas não tinha onde expor. Durante o processo de desenvolvimento do projeto, que durou em torno de cinco anos, conheci os componentes do coletivo: Felipe Pedroso (publicidade e marketing), Naty Fogaça (moda), Cláudio Celestino, conhecido como Dimas (arte) e Michele Micheletto (design). O coletivo multidisciplinar juntou mentes com objetivos semelhantes. De nossos desejos surgiu o espaço físico da Galeria Lúdica e nosso escritório de criação”.
Talvez um dos pontos que torna os espaços híbridos tão bem conceituados e visitados, esteja ligado ao fato de expor trabalhos de pessoas que não teriam ou normalmente não tem espaço em outros locais, como grandes galerias de arte, museus, restaurantes e teatros. Isso tudo num ambiente que dá essa oportunidade às várias expressões de uma só vez, por ter essa identidade mais pluralizada.
Para Paulina Albuquerque, esse é um dos motivos do sucesso da Muda. “Eu, como atriz, sempre pensei em ter um lugar que abrigasse os grupos teatrais da cidade e, assim, ter um espaço pra ensaios e oficinas. Como estilista sempre me inquietei pela moda não ser tratada como arte. Nunca entendi também porque as expressões artísticas são tão isoladas – as pessoas de linguagens artísticas diferentes não vão a eventos de outras expressões que não sejam as de suas preferências ou áreas. A minha vontade era de misturar o público e os criadores de artes específicas num convite à interação do maior número de linguagens artísticas possíveis, com o intuito de usar a influência e com isso formar público apreciador e consumidor de arte, sem preconceitos. Com viagens à Europa e aos Estados Unidos, mais precisamente Berlim e Nova Iorque, me apaixonei pela estética dos bares e restaurantes, que abrigam artes diversas e movimentos alternativos de cultura”, disse.
Unindo esses pontos comuns, um multiespaço que abriga várias tendências, a aceitação do público normalmente se dá de forma excepcional, por suprir várias necessidades culturais de um público mais alternativo em um só lugar.
“Curitiba ainda tem muita coisa para ser explorada e para acontecer no cenário cultural. A cidade tem necessidade e público para esse tipo de projeto, afinal a arte e cultura são para todos. O Mega Bazar Lúdica (MBL) surgiu dessa efervescência de novos criadores de talento que não tinham onde expor seu trabalho. A primeira edição foi em dezembro de 2007 e a partir disso muitas portas se abriram para que o projeto da Galeria Lúdica fosse possível. Hoje temos um público de aproximadamente sete mil pessoas por evento e vamos para a sexta edição em junho de 2010. Em vista destes dados é possível perceber que o público gosta de novidade e tem sede de projetos que tragam a criatividade em sua assinatura”, disse Débora Mello.
Já para Paulina Albuquerque, a Muda não surgiu com intuito de ser apenas um gerador de renda, mas sim um agregador cultural. “O Espaço é encantador, atraente. Cada segmento reage à sua forma e, na grande maioria, apóia a iniciativa – já que o Recife estava carente de um multiespaço. O Espaço Muda nasceu despretensioso do sentido mercadológico, longe de ser um negócio que visa antes de tudo a margem de lucro. Não temos receio em dizer que somos uma equipe jovem no atendimento ao público, como também temos orgulho em afirmar que este lugar surgiu da vontade de movimentar e proporcionar a interação entre os diferentes públicos e artes do Recife. É uma satisfação ver a circulação de pessoas ligadas à moda, às artes plásticas, cinema, música, teatro, se encontrando em um único lugar – o que até então era difícil de encontrar no Recife”.
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